• Rafa Almeida

Entrevistas | Dani Carmesim


Dani Carmesim | foto: André Insurgente

As histórias de Dani Carmesim e Feira Moderna Zine já se cruzavam, há anos atrás. Lá pelos idos do ano de 2011 lançamos nossa coletânea virtual, chamada Patch (tipo "retalho" mesmo, como os patches costurados na indumentária Punk, enfim). A ideia era reunir artistas dos mais diversos cantos, fazendo todo tipo de som! E no volume 4, lançado em 2012, havia uma recifense com uma voz incrível, fazendo soar Rock e brasilidade lindamente em suas canções!

A partir da participação na coletânea, o contato deste que vos escreve com a obra de Dani Carmesim se tornou mais constante, sempre impressionado com a qualidade de tudo que era lançado por ela. Até que veio a primeira entrevista, ainda na antiga versão online do FMZ!

Muita coisa aconteceu, de lá pra cá. Este fanzine mudou, se reinventou (sempre tentando!), pisou no freio, voltou a acelerar, enfim. Já com este novo site aqui, tentando não pirar por conta do isolamento social, era hora de trazer pra cá o material lançado no antigo blog, durante a quarentena. Em meio a esse processo, num dia qualquer, o e-mail notifica a chegada de uma nova mensagem...

Dani Carmesim lançava o single "Loop Infinito" e, em quarentena, trabalhava na produção de seu próximo álbum. Opa! Vamos ouvir isso, né?! Fones nos ouvidos, e lá estava sendo cantado o Brasil de 2020! E lá estava, também, a mesma voz fazendo ecoar Rock e brasilidade!

Dani Carmesim não só representa a mulher nordestina, preta, gorda e periférica. Ela também é a mulher que faz Rock, e reivindica o justo reconhecimento e classificação quanto à música que faz!

Traz de volta para o universo da indignação e contestação, o mesmo Rock que, descaracterizado por uma parcela de seu público, luta para não ser sequestrado e arrastado para o esgoto do conservadorismo, do machismo e dos preconceitos contra os quais ele próprio se levanta e grita, desde seu nascimento. Dito isto, e sem mais delongas: com vocês, Dani Carmesim.

FMZ: Para começarmos, queria que você contasse pra nós sobre antes de sua carreira solo, como a música entrou em sua vida, os primeiros projetos...

Dani Carmesim: Desde a minha infância eu queria ser artista e, como meus pais sempre gostaram de ouvir discos e boas músicas em casa, foi natural eu desenvolver um amor pela música. Ainda criança comecei a escrever as minhas primeiras letras e criar minhas primeiras canções até que em 2004, já adolescente, montei a minha primeira banda autoral com alguns amigos de bairro mesmo, chamada: Efeito Carmesim. Esse foi o meu primeiro contato profissional com a música e onde eu tive certeza de que realmente era isso que eu queria para a minha vida. A banda durou quatro anos e esse foi o início do processo até eu chegar ao meu atual projeto solo como Dani Carmesim.

FMZ: E como foi a decisão de investir em uma carreira solo?

Dani Carmesim: Depois que a minha primeira banda acabou e que eu entendi que era isso que eu queria fazer da vida, eu decidi montar um projeto solo que levasse o meu nome até pra facilitar a minha vida e me deixar mais livre como artista, para poder fazer outros trabalhos como intérprete, cantora e compositora, além disso me pouparia de futuros problemas com trocas de integrantes de banda, essas coisas...

Então, primeiramente, eu selecionei algumas músicas minhas, convidei alguns amigos músicos para me acompanharem e desenvolver os arranjos das canções comigo e depois de alguns ensaios eu gravei o meu primeiro EP chamado Devaneios que foi lançado, virtualmente, em 2011. Esse trabalho é totalmente autoral, independente e gravado em home studio, e foi o pontapé inicial para o meu projeto aqui em Recife como cantora e compositora solo.

Depois, em 2012, gravei meu segundo EP: Tratamento de Choque [Desconstruindo a Imagem Ideal], em 2015 o meu primeiro CD, Das Tripas Coração e recentemente lancei o singleLoop Infinito” que faz parte do meu segundo disco que está em processo de finalização e que será lançado em 2021, ano que comemoro dez anos de carreira.

FMZ: Em suas canções fica claro que a música brasileira e o Rock são influências importantes em seu trabalho. Como se deu a construção de sua sonoridade? Foi algo planejado, natural, enfim..?

Dani Carmesim: Minha sonoridade foi construída muito naturalmente até porque eu não fico preocupada em querer encaixar o meu trabalho num estilo específico, ou em um rótulo ou que soe ou lembre o som de alguma banda. Eu faço o meu trabalho de uma forma muito livre e com muito esmero e dedicação, e eu acho que eu consigo deixar claro que a base das minhas músicas tem influência total do Rock e suas vertentes. Mas sou o tipo de pessoa que coloco muito da minha vivência e da realidade que me cerca no meu trabalho, então, isso dá um toque de brasilidade misturado com regionalismo muito peculiar no meu som.

FMZ: O novo single, "Loop Infinito", é bastante atual! E não só pelo arranjo. A letra reflete exatamente a sensação que temos vivendo no Brasil, em 2020. Pra você, é inevitável que o momento histórico, ou social, apareça nas composições?

Dani Carmesim: Em minhas composições sempre abordo o que vejo no mundo, das simples coisas às mais complexas que influenciam diretamente nossas vidas. A música “Loop Infinito” surgiu da minha sensação de estarmos retrocedendo como sociedade e enquanto seres humanos, no campo politico-social, seja no Brasil ou no resto do mundo. Ideias retrogradas sendo reverberadas por pessoas que se julgam "cidadãos de bem" mas, na verdade, são pessoas hipócritas que vendem mentiras religiosas e políticas, e tudo que foi conquistado a duras penas, está sendo perdido pouco a pouco. E estamos voltando a viver como no início de tudo.

Parece que estamos presos em uma dimensão que nunca conseguimos evoluir, quando tudo parece que está dando certo, tudo começa de novo, como num programa de computação gráfica, onde já não sabemos o que é "o real". Só nos resta então "dar reboot" e tentar um recomeço.

FMZ: E quais as expectativas para o próximo álbum? Como se deu o processo de produção e quanto falta para que possamos ouvir?!

Dani Carmesim: Todos os meus trabalhos foram produzidos e gravados na Home Studio Área 51 do Fernando S., e esse novo trabalho não foi diferente. Realmente, a pandemia atrapalhou o processo e vem atrapalhando, mas na medida do possível estamos aos poucos retornando ao processo de finalização do novo disco.

Eu tinha me planejado toda pra lançar o álbum no primeiro semestre desse ano, mas aí veio a pandemia e tive que mudar o planejamento, então, achei melhor lançar um single do disco, no caso “Loop Infinito”. Eu ainda tinha esperança de lançar o disco no segundo semestre desse ano, mas realmente não vai dar tempo e achei melhor lançar só em 2021 mesmo. Até porque será um ano comemorativo pra mim, já que completarei 10 anos de carreira.

E ainda sobre o novo disco, ele terá 12 faixas de minha autoria, também terá participações super especiais de artistas e músicos daqui de Recife e ele está com uma sonoridade bem legal e densa em relação aos outros trabalhos já lançados.

“Além do mais, um dos meus objetivos na música é também fazer dela um lugar de representatividade para outras mulheres negras, gordas e periféricas, assim como eu, e que fazem Rock ou qualquer estilo musical.’’ (Dani Carmesim)

FMZ: Achei uma entrevista sua onde você fala do estranhamento que causa em algumas pessoas o fato de uma mulher cantar Rock. A que se deve tanto conservadorismo, tanto atraso, principalmente no meio musical, na sua opinião?

Dani Carmesim: Acredito que tudo causa estranhamento numa sociedade que fica presa ao comum e que tem medo do novo. Ainda bem que a história do Rock está sendo recontada e dando os devidos créditos aos verdadeiros responsáveis pela sua criação, pois foram omitidos pelo fato de serem negros, inclusive pelo fato de ser "criado", digamos assim, por uma mulher negra, Rosetta Tharpe.

No meu contexto, percebo que alguns classificam o Rock como fosse algo estático e com uma receita ou um conceito pré-estabelecido. Rock pra mim é mais que um som, um ritmo. O Rock é transgressor e sempre foi contestador de um tempo. E acima de tudo, verdade depositada no som que você faz.

Mesmo que as mulheres tenham tudo isso, o máximo que alguns classificarão será como Pop Rock. Nada contra o Pop Rock, pois me considero também. Mas quando um homem coloca guitarras distorcidas e com pegadas Pop, já classificam como o puro Rock n' Roll. Também quero ser "classificada" como Rock n' Roll porque eu faço Rock.

Além do mais, um dos meus objetivos na música é também fazer dela um lugar de representatividade para outras mulheres negras, gordas e periféricas, assim como eu, e que fazem Rock ou qualquer estilo musical. É muito importante a gente se enxergar e se sentir representado, ainda mais num país no Brasil que tende a não dar vez e voz para pessoas com essas características.

FMZ: Mudando de assunto, mas nem tanto... Apesar da facilidade na comunicação que as novas tecnologias oferecem, ao menos eu, ainda sinto uma certa dificuldade em chegar até a obra de artistas de fora do eixo Rio-São Paulo, principalmente na galera do underground. Como você, aí no Nordeste, percebe isso?

Dani Carmesim: Realmente tenho a mesma visão. Infelizmente as grandes rádios nacionais e os principais veículos de imprensa e mídia no nosso país não dão oportunidades pra bandas desse circuito underground, principalmente se ela não pertence a esse eixo Rio-São Paulo, é muito raro isso acontecer. Mas sabendo usar a internet a nosso favor dá pra fazer o nosso trabalho circular bem.

Eu, por exemplo, durante esse período de quarentena fiz muitas pesquisas e encontrei muitas Web Rádios dispostas a ajudar os artistas e bandas e isso possibilitou meu som chegar em lugares que eu nem imaginava, como na Europa. Recentemente tive uma surpresa, pois meu som está rolando em vários países da América Latina e estou tendo um retorno positivo do público e devo muito disso as Web Rádios que estão espalhadas pelo mundo.

Voltando a nossa realidade da cena brasileira, as Web Rádios brasileiras, alguns blogs, sites, zines e fanzines também estão ajudando muito os artistas independentes e criando condições para que exista uma troca entre artistas e bandas e isso é muito legal e importante que aconteça. Agora, claro, tudo vai depender do artista também, tem que meter a mão na massa, pesquisar, mandar e-mail, ser sua própria assessoria de imprensa, senão não rola, não dá pra ficar esperando cair do céu.

FMZ: Aproveitando, o que tem rolado de novos artistas aí no Nordeste, principalmente em Recife, onde tem tanta música, que o resto do país tem que conhecer?

Dani Carmesim: Realmente sou de uma terra privilegiada de cultura e ousadia quando falamos de música, apesar do cenário negativo que estamos vivendo. Como vocês devem saber, no Recife e outras cidades espalhadas pelo Nordeste existem vários artistas e bandas de várias linguagens e o Rock tá na nossa veia cultural também.

Em Recife, onde vivo, tem uma "nova" geração musical muito massa de artistas e bandas que todo mundo deveria conhecer como por exemplo: Diablo Angel, Fernandes, Juvenil Silva, Verdes e Valterianos, Zeca Viana, Plugins, Saga HC, Petrônio e as Criaturas, Triinca, Mayara Pera, Liv, Alan Falcão, Bettercup, Buffalo Lecter, SargaçoNightClub, Lício Gomez, VoltimetroBass, Marília Parente, Banda Avoada, Arquivo Morto... cara, são tantas bandas e artistas maravilhosos que fica difícil citar tudo.

FMZ: Sobre os últimos meses: como tem sido esse período de isolamento social pra você? E qual a sensação de ter de ficar longe dos palcos?

Dani Carmesim: A vida de artista independente sempre foi difícil no geral, aqui em Recife. Na verdade, antes da pandemia já tinham fechado muitos espaços e casas de show e os poucos que estavam resistindo eram pequenos e aceitavam mais o formato voz e violão e não banda mesmo.

Infelizmente, os festivais renomados e grandes aqui da cidade também tem uma tendência a não abrirem espaço para as bandas locais "novas" e mais underground, e os incentivos e editais voltados para a cultura aqui na cidade também não abrem espaço para novos artistas e bandas. Então, já estava muito difícil o cenário aqui e a gente se virava fazendo tudo na raça e no bom e velho espírito faça você mesmo.

Com a pandemia, achei bem interessante, que me abriu possibilidade de fazer muitas coisas, eu não parei um dia se quer, então, vez ou outra participo de lives de entrevistas, de festivais online, também tive tempo pra fazer uma divulgação em massa do meu novo single o que me rendeu entrevistas, matérias em sites, blogs e jornais e sempre estou fazendo alguma dessas atividades. Eu acho que eu soube aproveitar bem esse momento da pandemia para divulgar mais o meu trabalho, fazer ele chegar em mais pessoas e isso está cada vez mais notório.

FMZ: O que tem ouvido (ou sentido), de outros amigos músicos a respeito do futuro, do tal "novo normal" no meio independente, onde as coisas sempre foram mais difíceis?

Dani Carmesim: Cara, é claro que a gente escuta e vê de tudo entre os amigos músicos, rola tanto a desesperança e o cansaço quanto o incentivo e um gás pra continuar. Infelizmente, a gente vive num país que não valoriza a arte e a cultura e muito menos quem vive e trabalha com ela e isso tá claro nesse desgorverno em que estamos vivendo. Eu acho que a gente tem que saber canalizar e direcionar o nosso trabalho pras coisas que estão dando certo e claro, trabalhar com metas alcançáveis dentro da medida do possível para cada um, sempre dando pequenos passos, porém, passos firmes e que estão deixando marcas e criando um caminho consistente. Dessa forma a trajetória fica menos pesada, sabe? E a gente consegue manter um mínimo de saúde mental preservada, fazendo o que ama.

FMZ: E chegando ao fim com a pergunta que temos feito a todos os entrevistados, em tempos de pandemia: o que esperar do mundo "pós-coronavírus"?

Dani Carmesim: Não vou mentir, eu tinha uma esperança do "novo-normal" ser realmente algo diferente e novo que iria mudar as pessoas e conscientizá-las, mas já perdi essa esperança (rsrsrs).... Espero que tenha logo uma vacina e que os shows voltem e que a cena underground e independente se fortaleça e se erga rápido novamente e, principalmente, que aquelas pessoas que ficaram de suas casas assistindo as nossas lives apareçam no show presencial e mostrem que incentivam e apoiam de verdade o nosso trabalho.

FMZ: Muito obrigado pelo papo! Parabéns pelo novo single. Desde já no aguardo do próximo álbum. E até a próxima!

Dani Carmesim: Eu agradeço pelo espaço e a oportunidade de conversarmos de vários assuntos importantes e necessários. Também quero parabenizar pelo belo trabalho que vocês fazem dando vez e voz aos artistas autorais e independentes. Deixo aqui o convite a todos e todas para conhecerem o meu trabalho musical que está disponível em todas as plataformas digitais, me sigam nas redes sociais também que irei recebê-los de coração aberto, é só procurar por Dani Carmesim que me acha rapidinho e fiquem ligados que eu sempre estou lançando material nas minhas redes e ano que vem tem disco novo, clipe, comemoração de 10 anos de carreira, enfim... Vamos trabalhar muito.

Ouça o novo single “Loop Infinito” no Spotify.

Leia a resenha de “Loop Infinito” em Nos Fones.

Conheça Dani Carmesim: Instagram | Facebook | Youtube | Spotify

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