• Rafa Almeida

Entrevistas | Delinquentes


Delinquentes | foto: divulgação

Num passado distante, num mundo pré-internet, o underground se fazia existir e se comunicava através de cartas, troca de fanzines, fitas demos em k7 que eram copiadas e trocadas, via correspondência, entre músicos, fanzineiros e fãs de música de todos os cantos do Brasil (e do mundo)! As distâncias se encurtavam e as semanas, às vezes meses, que se passavam até que um contato num canto distante do país retornasse o material enviado com fanzines e demos de sua região, com o que estivesse rolando em sua cidade.

E se períodos de dias ou meses já pareciam (apesar da ansiedade pelas novidades que o carteiro traria) encurtados com a troca de cartas, a internet resumiu todo o trabalho de copiar as fitas, montar a encomenda ou camuflar a grana pra compra de material no papel carbono, em um único clique no computador ou toque na tela do celular! Mas, mesmo com toda a tecnologia à disposição, algumas sensações continuam presentes quando pensamos no cenário underground de uma cidade distante da nossa. Estar em algum lugar, virtualmente, jamais irá substituir a presença física. Sendo assim, continuamos só a imaginar o underground que existe distante de nós.

Em 2020, em plena pandemia, nos vimos obrigados a encurtar as distâncias entre nós e nossos vizinhos, os amigos de um bairro próximo ou parentes do outro lado do quintal. E, sem perceber, qualquer conceito de distância, invariavelmente, acaba sendo revisto. Hoje, vamos encurtar a distância entre Niterói/RJ e Belém/PA.

Na capital paraense, há trinta e cinco anos atrás surgia a banda Delinquentes! Lenda viva do underground brasileiro e atuante no cenário de sua cidade, acabou pagando o preço por sua dedicação à arte em tempos de sombras. No começo desse ano, integrantes da Delinquentes e demais produtores do Facada Fest. sofreram explícita tentativa de silenciamento, censura. Como se nâo bastasse, as definições de absurdo tiveram de ser atualizadas, uma vez que a intimidação partiu de Brasília, do Governo Federal. Como se o problema fosse um festival Punk, né? Definitivamente, não. A arte nunca será um problema. Quem se incomoda com ela, sim.

Sem deixar essa triste tentativa de calar artistas ofuscar a linda marca de trinta e cinco anos de underground da Delinquentes, o Feira Moderna Zine foi trocar uma ideia com Jayme Katarro, outra lenda viva do underground nacional, e vocalista da banda! E, ainda sobre distâncias encurtadas, até um show em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio (cidade natal deste que vos escreve), num distante 2002, apareceu! Confere o papo aí!

FMZ: Logo de cara, pra começar! Vocês anunciaram lançamentos de materiais da discografia em comemoração aos trinta e cinco anos da banda. Podem adiantar o que está por vir?

Jayme Katarro: Olá. Então, havia um tempo que queríamos lançar nas mídias digitais umas demos antigas nossas, da época das demo tapes e nunca conseguíamos. Cada vez mais descobrimos o quanto essas demos foram importantes pra algumas pessoas que viveram isso, então decidimos fazer uma coletânea (em 2 partes) com parte desse registro. O lado A já foi lançado e o lado B será daqui ha 2 semanas. Fora isso, lançaremos em dezembro um single novo (com clipe) e fechando com chave de ouro, tem o relançamento físico do nosso primeiro disco, Pequenos Delitos, lançado em 2000 pelo selo Ná Music e que agora será relançado por ele em parceria com a Xaninho Discos. Esse disco completa 20 anos em 2020.

FMZ: Eu queria voltar no tempo pro começo da história da Delinquentes. Quais lembranças mais fortes você tem daquela época, quanto à formação da banda, o cenário em Belém, enfim?

Jayme Katarro: Bom, montei a banda junto com um cara do Insolência Públika, então, é impossível não lembrar do tempo que andávamos juntos. O Movimento Punk era muito reduzido naquele tempo. Éramos umas 5 pessoas que curtiam o visual, o som e as ideias. Lá pra 88 começou a crescer, foram se chegando outros para fortalecer. Hoje já não faço mais parte do movimento, mas tenho muito orgulho de tudo que vivi com eles. Fazíamos atos shows em praças, reuniões, passeatas, etc.

FMZ: E como é manter uma banda viva por tanto tempo? A Delinquentes passou por muitas fases do underground, a chegada da internet, agora as plataformas de streaming... Como fazer com que uma banda sobreviva de forma independente por tanto tempo?

Jayme Katarro: Cara, é meio natural. A banda acabou fazendo parte da minha vida. E o tempo foi passando que nem senti passar. Mas quando você para, e lembra a diferença que era, na época das cartas, que você lançava uma demo e tinha que enviar pro mundo todo pra circular seu som, aí você percebe o quanto a tecnologia veio pra ajudar. Hoje você solta uma música e tem uma facilidade enorme de fazer ela chegar em todo canto do país. Lógico que há um excesso de informação também. Tudo fica mais rápido e efêmero, mas acredito que a tecnologia veio mais pra ajudar do que pra atrapalhar.



Delinquentes | foto: reprodução/internet

“Isso foi a coisa mais absurda que já aconteceu na minha vida. Eu nunca imaginaria que um show de Rock daqui de Belém fosse tomar as proporções que tomou. E é uma puta forma de fascismo, de censura.” (Jayme Katarro - Delinquentes)



FMZ: Mesmo antes das últimas eleições, já se notava o crescimento de ideias conservadoras no meio underground. As redes sociais até ajudaram a identificar essas pessoas, enfim... Imagino que, pelo tempo de estrada, a Delinquentes tenha visto essa guinada à direita de uma parte do público. Minha pergunta é: na sua opinião, como ideias fascistas encontraram espaço no Rock e no underground? E mais: como garantir que o underground seja um espaço seguro, livre desse tipo de pensamento?

Jayme Katarro: Acho que sempre estiveram aí, né? Só que não era tão latente. Aí veio uma sombra de um Hitler, ou de um Trump, e desenterrou o que havia de mais podre em algumas pessoas. Era natural que isso tivesse eco no Rock também, mesmo que sendo muito contraditório com as ideias originais do Punk e de outros estilos. Mas algumas coisas sempre estiveram alí. O machismo, xenofobia... coisas que hoje combatemos. E é legal que sempre tem também muita gente que combate tudo isso, que acredita que o ser humano pode ser melhor do que nos é jogado, como um padrão já arcaico e conservador.


Arte Facada Fest. | reprodução/internet

FMZ: Uma das bandas com mais autoridade para falar sobre resistência ao fascismo, nos últimos tempos é, sem dúvidas, a Delinquentes. Vocês foram uma das bandas e pessoas atacadas diretamente no episódio do Facada Fest., no começo do ano. Queria saber como foi essa situação pra vocês, como se sentiram tendo de dar explicações ao Estado por se manifestarem artisticamente e o que ficou como lição dessa história.

Jayme Katarro: Isso foi a coisa mais absurda que já aconteceu na minha vida. Eu nunca imaginaria que um show de Rock daqui de Belém fosse tomar as proporções que tomou. E é uma puta forma de fascismo, de censura. A intimação foi para intimidar, mesmo. Descobrimos que partiu do mesmo gabinete daquele verme que expôs os antifas no país, ou seja, está tudo interligado. O pior foi ver bangers elogiando a atuação, tanto da polícia, que impediu o primeiro evento, quanto do Moro, que assinou a intimação. E não acabou ainda. Estamos esperando o desfecho, sem saber se irá adiante, ou se o delegado se tocará do quanto tudo isso é ridículo, visto que até o próprio Moro já rompeu com seu antigo chefe.

FMZ: Pra nós, aqui do Sudeste, muitas vezes o underground no Norte e Nordeste do país parece muito distante. Com as redes sociais, de alguma forma, essas distâncias diminuem um pouco e conseguimos saber mais sobre o que acontece por aí. Antes da pandemia vinham rolando festivais, como o Facada Fest. por exemplo, a Xaninho Discos e, com a quarentena, vieram coletâneas virtuais, lançamentos... A impressão é que tem bastante coisa rolando por aí. Como é o cenário em Belém e na Região Norte?

Jayme Katarro: Cara, é forte no sentido de quantidade. Muitas bandas e muitos shows. Lógico, nada se compara à SP por exemplo, mas pra uma cidade pequena, que é Belém, é realmente uma surpresa você ter que escolher qual show você vai querer ver numa noite, o que muitas vezes acontece. E sei disso também por causa do estúdio que tenho, o Fábrika, e vejo a rotatividade enorme de bandas aqui, principalmente de Rock.


imagens: reprodução/internet

FMZ: E como tem sido esse período sem shows, em quarentena, pra Delinquentes? Além dos preparativos para os trinta e cinco anos da banda, tem rolado mais alguma atividade, compor novos sons, se reunir mesmo que virtualmente, enfim?

Jayme Katarro: Nós ficamos parados pouco tempo, na verdade. Aqui a quarentena foi forte, com muitas mortes nas portas dos hospitais. Então, no período de março, abril, paramos tudo mesmo. Mas aí ficamos lançando uns materiais na internet, incluindo uns making of gravado em nossa mini tour por SP, participamos de alguns festivais on line (Roadie Crew OnLine e Lulapalloozo Fest), além da nossa live, que rolou em julho e teve um feedback bem legal. Depois disso, focamos nos sons novos, que desembocará no lançamento do single e também pro início do ano que vem, um compacto 7 split com uma banda que por enquanto é surpresa.

FMZ: Como você acha que fica o cenário independente depois desse período? Espera-se uma grave crise na economia. Dá pra imaginar como ficam os espaços para shows, selos e os trabalhadores da cultura quando tudo isso passar?

Jayme Katarro: Sobreviver mais que nunca está sendo uma arte agora. Os músicos e envolvidos com a arte estão se desdobrando como podem. Tenho esperanças que consigamos retornar à normalidade, isso se o presibosta não impedir o acesso às vacinas. Por enquanto tudo é um mistério, e o que sempre tento dizer aos amigos e conhecidos é: sobrevivamos, tudo vai passar.

FMZ: Aliás, por falar em pós-pandemia: eu não tenho notícias de ter rolado show da Delinquentes aqui no RJ. Já vieram pra cá alguma vez?

Jayme Katarro: Siiiimmm. Só que foi um show bem pequeno e tem muito tempo. Foi em 2002, num colégio em são Gonçalo. Esperemos que consigamos circular mais e quem sabe chegar até essa cidade bonita, assim que tudo normalizar.

FMZ: Muito obrigado pela oportunidade de trocar uma ideia contigo! E, pra encerrar, a pergunta de sempre (ao menos nos tempos que vivemos): o que esperar do mundo pós-pandemia?

Jayme Katarro: Poxa, eu que agradeço pelo convite. É graças a esse tipo de incentivo que a roda não para. E sobre o pós apocalipse, espero que aos poucos retorne, mas acho que algumas coisas chegaram pra ficar, como as lives. Acho que dificilmente pararão e prevejo que sejam integradas aos shows futuros.

Assista ao lyric vídeo de “Brasil Mitômano”:


Assista ao clipe de “Pescador”:


Trecho do DVD gravado ao vivo na Praça da República, em Belém/PA:


Live da Delinquentes, realizada em julho deste ano:


Conheça a Delinquentes:

Facebook | Instragram | Spotify | Youtube

Obs: Se você é daqui da Região e sabe que show da Delinquentes, num colégio em São Gonçalo/RJ, foi esse, ou estava lá, diz pra gente! Que o editor deste fanzine (no caso, eu) tá queimando os miolos aqui tentando lembrar se estava presente, ou se tocou, enfim...rsrsrs

#feiramodernazine #entrevistas #delinquentes #hardcore #cossover #belem #pa #bandasindependentes #musicaindependente



leia também:

Encontre os livros mais vendidos em oferta na Amazon:

br_associates_2_300x100._CB465180671_.jp

Encontre livros em oferta na Amazon:

br_associates300x100._CB465180664_ (1).j

Ajude o FMZ a continuar difundindo arte, cultura e resistência!

Siga o FMZ e compartilhe nosso conteúdo em suas redes sociais:

  • Facebook ícone social
  • Instagram
  • Twitter
  • Tumblr ícone social
  • Pinterest
  • YouTube
  • Spotify ícone social
  • RSS ícone social

Parceiros:

Portal Revoluta.jpg

Contribuições financeiras:

(saiba mais)

Fanzine de Niterói/RJ. Desde 2002.

© 2020 por Feira Moderna Zine.

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now