• Rafa Almeida

Entrevistas | Ninguém

Atualizado: Out 20


Ninguém - Balanço Oculto Vol.1

Ninguém não é músico. Ninguém parece se virar única e exclusivamente com sua percepção, sua sensibilidade. Ninguém é uma pessoa comum, como você e eu. E se mostra assim, através de sua arte. Da construção de batidas, passando por acordes na guitarra e, por fim, a canção como a ouvimos, tudo parece fluir de forma intuitiva. Ninguém é uma das (inúmeras) provas cabais de que há arte em cada um de nós. E que cada um de nós deixa a arte que há em si fluir e encontrar o mundo de formas diferentes. Não fazê-lo seria, definitivamente, um grande erro. Afinal de contas, que desperdício seria não ter à disposição de nossos sentidos a arte que há no outro, não?

Rafael Dverso sempre deixou a arte sair de si, fluir, encontrar o mundo, o outro. Desde meados dos anos 2000 na cena Hardcore e Hip Hop da Zona Oeste do Rio, intervindo e interagindo no universo dos Sound Systens ou com sua Orquestra Binária, ao lado de Helder Dutra e Márcio Silva. Aqui, já como Rafael Oliveira, que também é Ninguém.

Este fanzine insiste: Há arte em cada um de nós. Alguns compartilham sua arte com o mundo em forma de música, outros usam as palavras, o texto, a poesia, a dança, o cuidado, um carinho, amor, silêncio, não importa! Há música e arte fluindo em tudo e todos. Em nós... Com vocês, traduzida em palavras (aqui, ao menos) a música e a arte de Ninguém.

FMZ: Eu queria começar falando sobre o Ninguém. Mas antes, vou te pedir pra contar sobre sua relação com a música e sua trajetória, até o Ninguém aparecer!

Ninguém: Eu sinto que “ninguém” é uma figura produtiva. Talvez por inibição, eu tiro sentido criativo desse lugar. Percebo que é a única posição artística, musical, estética que me importa.

Por acreditar que parte do mal-estar e exaustão que parece nos ressentir como sociedade é resultado de uma cultura do “eu”, imagino haver alguma força em “Ninguém”... Este insight meio político e ideológico sobre nosso modo de vida também tem algum papel no meu interesse por essa ideia, por esse nome, acho.

Ao mesmo tempo, fui compreendendo razões para esse nome ao longo dos anos, pensando sobre a Orchestra Binária, trio que compartilho com o Helder e o Márcio. Em 2016, produzindo material de divulgação para nosso segundo EP, chegamos a uma imagem que acho visualmente muito bonita. Não sei explicar, mas muito da beleza dessa imagem, que é uma montagem de outras três fotos que fizeram de mim, é que eu meio que apareço “despersonalizado”. A minha figura desaparece, eu estou e não estou visível, sei lá...

Mas é meio engraçado falar sobre isso. A verdade é que eu preciso pensar sobre o assunto para lidar com essa pergunta. É o que tentei fazer agora.

FMZ: Seu som tem muito de música brasileira, e das mais variadas vertentes. Sempre foi interessado em música brasileira, em pesquisar sons e por aí vai?

Ninguém: Tirando a experiência ordinária que todos temos com música, como uma escuta passiva e tal, minha relação com música foi nula. Eu sou de 85, então era rádio, televisão etc.

Eu aprendi um interesse sobre o assunto no mesmo momento em que despertei criativamente, acho. Um amigo de escola me chamou para formar uma banda. Ele tocava guitarra, eu não tinha conexão alguma com música. Meu negócio era jogar bola, matar aula e, dentro desse rolé, o Antônio inventou essa jornada de som para a gente – hoje, ele é um baita tatuador, tem uma banda chamada No Trauma, estabelecida na cena Metalcore, uma parada consistente, verdadeira e tal. Foi através dele que conheci Planet Hemp, Rage Against the Machine, Chico Science. Compondo desde o princípio, sem cover e tal. Nossa banda era isso.

Acho que o que marcou para sempre minha relação com música foi a Nação Zumbi. Tenho muita admiração e respeito por eles. Sou um entusiasta de todos. Sem que fosse uma coisa sofisticada, eu aprendi a ter curiosidade musical a partir deles. Lembro de quando li o nome do Arto Lindsay no álbum de 2002 da banda. Como isso me levou ao Instituto do Ganjaman com o Rica Amabis e o Tejo Damasceno... “Bambas & Biritas – Vol. I” do Bid, “Samba Pra Burro” do Otto... Quinto Andar, Speed Freaks, Black Alien, aí da área de vocês, enfim. A mística sobre o “Tim Maia Racional”...

A Nação Zumbi me expôs à influência de gêneros como Afrobeat, Dub, Jungle, Hip Hop, Trip Hop. E, claro, à música brasileira também. Pelo modo como aprendi a ouvir música em geral, a minha relação com a música brasileira é muito marcada por esse vínculo. Na verdade, com a música brasileira do início dos anos 2000. Então, o que estou tentando dizer é que eu não tenho muita conexão com o cânone da MPB. Enfim, Caetanos, Gils, Bethânias, são curiosidades recentes para mim.

FMZ: Fale sobre o Balanço Oculto! Como surgiu a ideia de uma trilogia, as participações, enfim.

Ninguém: Para mim, nada é mais elementar (e, por isso, fundamental) que o Jorge Ben Jor. Compreendo que haja uma discussão sobre os diferentes momentos da sua discografia, que a crítica ou os fãs mais atentos se interessem por uma fase mais luminosa da carreira do que outras, mas ele é uma obra de referência. Está sempre na minha cabeça e, provavelmente, implícito no que componho. Por associação inevitável, Bebeto, Trio Mocotó, Originais do Samba também. Bedeu, Branca Di Neve, enfim.

O “Balanço Oculto”, por um lado, meio que reivindica uma vinculação com o Sambarock. Mas sei que é um vínculo frágil em muitos sentidos... O termo comunica abordagens de estilo muito diferentes em termos de gênero musical. Salvo uma certa rítmica, uma certa pulsação, uma certa levada, uma certa associação de instrumentos, acho que não há gênero em nível de estilo que coincida esses e outros artistas que, para todos os efeitos, estão identificados com o que chamam de Sambarock – que parece ganhar um significado mais expressivo, mais carregado de sentido e tal, inclusive como manifestação cultural de interesse público, na cidade de São Paulo... Nesse sentido, vale muito a pena procurar sacar não apenas o som do Clube do Balanço, mas o que Marco Mattoli movimenta sobre o assunto por lá, com a rapaziada lá da cena e tal.

Sobre a trilogia, achei que seria legal projetar uma série de três volumes com três faixas. Prólogo, ato, epílogo. É uma pilha, uma viagem, mas só assim para a coisa rolar... Hoje, já há mais material, mais composição, então, a brincadeira não se encerra com o fim do que imaginei.

As participações aconteceram de um jeito meio desorganizado. Não foi muito planejado, mas fizeram todo sentido quando rolaram. Tanto que eu sinto que eu não teria concluído o que iniciei sem o Helder e o Marcio (Orchestra Binária), o Arthur Martins e, principalmente, o Fred Gomes e o ChinDub (Trina Estúdio e InbraDub).

FMZ: E sobre gravar em diversos lugares diferentes, com tanta gente diferente? Como dar unidade, ou definir uma cara, pra um trabalho feito a tantas mãos?

Ninguém: Quando eu digo Cidade de Deus, Lapa e Flamengo para me referir à produção do “Balanço Oculto, Vol. I”, estou me referindo aos meus equipamentos de produção e criação musical. Na Cidade de Deus, era eu e uma versão demo do FLoops no meu notebook. Na Lapa, era isto, mais uma percpad, uma HR 16 e uma guitarra de terceira ou sexta mão. Tudo de uso coletivo na Orchestra, na Paracelso Records e tal. No Flamengo, tomei coragem, adicionei uma guita Epiphone, Les Paul SL e tal, e um mic condensador MXL 990. O que eu chamo de “Força Bruta/Taj My House” não é senão as configurações dessa célula caseira de criação musical que, entre idas e vindas, estão sempre comigo desde 2006, 2007...

Os takes definitivos foram realizados nessa última fase, no Flamengo. O Arthur e a Orchestra vieram para somar nos coros. O Arthur contribuiu tão decisivamente nas teclas e, junto comigo, na percussão, que está creditado como arranjador.

Os vocais, guitarras, programações, percussões e teclas foram enviados para o ChinDub mixar e masterizar em SP. Eu acredito que o EP não soaria como soa sem ele. E o cara apareceu para mim por causa de um companheiro de jornada, um grande militante da cena Reggae e Sound System no Brasil, o Fred Gomes. Ele tem um percurso muito forte na música... O cara gravou todos os baixos. Uma coisa incrível.

Pelo background jamaicano do Fred e do Chin, a sonoridade do disco sempre esteve mais ou menos resolvida... Penso que ela aparece mais explicitamente na última faixa, mas ela meio que regula o EP como um todo. Conscientemente, busquei uma ênfase nos graves, na interação do baixo com a bateria. Na minha cabeça, a dinâmica da música que rola no EP funcionaria com esse jamaican style. E acho que funcionou mesmo.

FMZ: E quanto à repercussão desse Vol.1, como está sendo?

Ninguém: Por uma questão geracional, eu me sinto completamente incapaz diante das tarefas de viabilizar a comunicação de um trabalho musical nas redes sociais. Como eu não possuo uma estrutura propriamente dita para isso, eu fico entregue a ações organizadas, mas de fôlego limitado para promover o álbum – o Lucas Santos a.k.a. SVI colaborou comigo e recomendo. Mas essa é a minha condição. Se eu tiver sorte, se eu for capaz, isso muda... Mas, sei lá, eu li uma entrevista com o Parteum que me fez pensar sobre a divulgação do ponto de vista da criação musical. No final das contas, é o que posso fazer, realizar. É a causa de tudo.

Ao mesmo tempo, até por conta disso, eu fiquei muito feliz com cada citação que o EP obteve por aí. O Disconversa, HermesZine, enfim, o DJ Lencinho me deu uma moral monstra e recomendou minha música num storie do Circo Voador. O pessoal do Polvo Manco me incluiu numa playlist... Particularmente, é muito legal quando a referência é acompanhada por uma crítica, um comentário, um pensamento, como aconteceu aqui, aliás.

Além disso, bem, o EP apareceu no Sounds and Colours. Foi citado e comentado como um dos melhores lançamentos de música brasileira em 2020. Tipo, curador, DJ, produtor, enfim, as pessoas lá no Reino Unido, em Nova Iorque, ou sei lá o quê, me ouviram. Isso foi uma surpresa indescritível. O pessoal da KBCS, uma rádio alternativa, pública, sedeada em Seattle e tal, entrou em contato comigo. No último sábado (10/10), rolou meu som por lá. Acho que vai rolar neste sábado de novo (17/10). Parece que os caras gostaram de “Ninguém Cantou” e “Desde São Domingos” e tal. Está tudo hospedado no site deles e tal.

FMZ: As outras duas partes da trilogia já estão sendo produzidas? Tem previsão de lançamento?

Ninguém: Então, a Orchestra Binária é uma caminhada que entre 2006 e 2016 totalizou dois EPs, dois singles e umas cinco ou seis apresentações ao vivo. É uma banda, a despeito de existir ou não, de troca de arquivos, montagem, edição... Um processo muito próprio. E, desde o princípio, eu quero fazer diferente.

A minha trilogia está composta. Começo a gravar o segundo volume assim que lançar um single, que está em produção e deve pintar daqui a pouco, certamente ainda neste ano. E antes do próprio single, rolará um clipe... Em termos de previsão para a trilogia, eu quero ter concluído os três volumes até o junho ou julho de 2021.

FMZ: Com relação a streaming, tecnologias e quarentena, também. Através dessas novas plataformas, o artista independente consegue fazer seu trabalho chagar a uma boa parcela do público e ser, minimamente, bem remunerado com isso?

Ninguém: Eu diria que as circunstâncias atuais de criação e difusão musicais são incrivelmente oportunas para artistas, como eu, sem uma indústria para si. Digo, não sendo estas circunstâncias, especialmente no meio de uma quarentena, por que uma pessoa em “Netherlands” me ouviria? O fato é que isso acontece.

Ao mesmo tempo, é inevitável que um artista independente se ressinta pela sensação de falta de escuta, audição, de público para seu trabalho. É uma inerência da própria ampliação tecnológica da possibilidade de ser ouvido se sentir pouco escutado, acho. É uma ambiguidade, uma esquisitice, mas é real... O Romulo Fróes discutiu isso numa série de vídeos ótimos para a Rádio Batuta...

Como eu estou longe de um rolé profissional, e a cena independente é cheia deles, de uma galera que se organiza pra fazer a carreira acontecer de verdade, acho que não tenho muito o que falar. Digo, meu EP é vendido no Bandcamp. Claro que eu queria que ele fosse ainda mais comprado, mas, enfim, de vez em quando um gringo pinga uma moeda lá... Seria muito maneiro se mais pessoas me comprassem, ouvissem, me adicionassem nas redes, especialmente no Brasil e tal... Acho que o que eu quero dizer é que, partindo de um zero absoluto, eu ainda não vivenciei a frustração de uma expectativa com música. Tipo, acho que não sou a pessoa mais capaz de refletir o problema econômico embutido no assunto. Saca?

“Como músico, só tenho a música que batuco. E ela tem acontecido. E ela acontece porque o encantamento com a música que é feita pelas pessoas permanece durante a quarentena.”

FMZ: Como tem sido esse período de isolamento para você, como músico?

Ninguém: Eu não sou músico. Quero dizer, eu não tenho um violão em casa e, na minha guitarra, eu não sei tocar ou acompanhar nada. Musicalmente, só sei as minhas composições. Como músico, só tenho a música que batuco. E ela tem acontecido. E ela acontece porque o encantamento com a música que é feita pelas pessoas permanece durante a quarentena.

Eu sou muito fã dos trabalhos recentes do Siba, sou fã desde sempre do Curumin. O “Encarnado” da Juçara Marçal é de perder o fôlego. O “Rastilho” do Kiko Dinucci prova que ainda há música por ser feita num violão... Continuo achando “Cores & Valores” dos Racionais MC´s muito bom, não importa o que digam. Considero o Douglas Germano um herói nacional a ser celebrado como um feriado de resistência civil.

Acho que todo mundo que curte música alternativa deveria ouvir “Baile Tenso” do Rodrigo Caê – eu tenho uma estima espontânea pelo rolé dele, que é da Baixada, acho que me lembra a Orchestra, Cidade de Deus, Radiohead, Noise, música eletrônica e tal. O disco que o Arthur Martins está para lançar é incrível. O Erik Batista, camarada de Belo Horizonte, está produzindo um material muito foda. Eu fiquei muito impressionado com o “Corpo Possível” da Bruna Mendez, o Bruno Berle lá do Batata Records é muito bom também, a Bel Almeida, aqui do Rio, tem uma voz incrível... Enfim, em termos de música, minha quarentena tem sido mais ou menos o de sempre, acho.

FMZ: E o que acha que acontece com a música independente (músicos, técnicos, espaços de shows..) após tudo isso que estamos passando?

Ninguém: Do ponto de vista mais estrutural, mais profissional, considerando as fragilidades de sempre da cena underground brasileira, acho que devemos nos preparar para o pior. E este pior, por inércia institucional e irresponsabilidade pública, inclui a possibilidade de nos vermos incapazes de resistir ao desejo de “aglomerar”... A boa notícia, como sempre, é que não há problema que organização e coletividade não sejam capazes de nos fazer atravessar. Acho eu!



Ouça "Ninguém Cantou", faixa de Balanço Oculto Vol.1:


Conheça Ninguém e seu Balanço Oculto Vol.1:

Instagram | Bandcamp | Spotify | Tratore

Conheça a galera que participou de Balanço Oculto Vol.1:

Arthur Martins | ChinDub | Fred Gomes | Orchestra Binária


Conheça a banda No Trauma.

Confira “Balanço Oculto Vol.1” em nosso Nos Fones.

Sobre o Hermes Zine aqui no FMZ.


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